segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Amor Filial


O amor dos pais para com os filhos por vezes alcança as raias da sublimidade. Isto é o que bem atestou um professor chinês, emigrado para o Brasil, ainda em sua juventude.
Quando Wong tinha somente quinze anos, conforme o costume na China, os pais lhe escolheram a noiva e o casaram. Logo chegou a primeira filha. E a segunda.
Ainda bebês, as duas meninas foram deixadas com a mãe, pois que o pai foi estudar em terras distantes. Retornando à China, porque estivesse em andamento a Segunda Guerra Mundial, ele passou a trabalhar para os americanos.
Falando fluentemente o inglês, foi precioso instrumento para eles, enquanto ele próprio amealhou grande fortuna.
Nesse ínterim, conheceu outra jovem por quem se apaixonou perdidamente e, desejando consorciar-se com essa, foi pedir à esposa que o liberasse de seus compromissos.
Naquela época, era suficiente que a esposa assinasse um documento, concedendo ao marido a liberdade, para que o homem se considerasse divorciado.
A primeira esposa, ao saber da real paixão do marido, concedeu-lhe o que ele pedia, ficando responsável pelas duas crianças pequenas e a mãe dele.
Para sustentar-se e a elas, trabalhou o quanto pôde, sem jamais dizer qualquer palavra de azedume para a sogra, a quem cuidou até a morte. Muito menos fez às filhas qualquer referência maldosa a respeito do marido.
Wong, por sua vez, ao irromper a guerra civil chinesa, começou a ser perseguido, justamente por seu trabalho com os americanos durante o conflito mundial.
E, depois de alguns percalços, emigrou para o Brasil, com a nova esposa e a prole: quatro meninas.
As filhas do primeiro casamento, somente por o terem tido como pai, embora jamais ele as tivesse assistido durante sua infância, juventude ou madureza, sofreram muito.
Uma delas, juntamente com o marido, foi presa e exilada para o norte da China, de onde somente pôde retornar mais de onze anos depois.
A outra teve o marido preso por quatro longos anos. Tudo por serem parentes do professor fugitivo do país.
O tempo passou. Então, as filhas do segundo casamento procuraram as meio-irmãs do primeiro e passaram a trocar discreta, mas constante correspondência.
Rolaram os anos. O pai envelheceu e adoeceu. As notícias chegaram às duas irmãs na China. Reunindo os recursos disponíveis, ambas vieram ao Brasil.
Sem falar nenhuma palavra a não ser chinês, elas se aventuraram até aqui. Vieram ver o velho pai, cujo contato tinham perdido, desde a meninice e de cujos carinhos jamais puderam lembrar, pois não os tiveram.
Com o afeto de dedicadas filhas, elas o saudaram. E com ele ficaram nos meses que antecederam à sua morte, atendendo-o em todas as suas necessidades.
Na sua fala, demonstravam verdadeira devoção filial. Nada que pudesse trair mágoa, rancor ou ressentimento.
O pai não as atendera na infância, entretanto, elas vieram atender o pai, em sua velhice.
Nenhuma diferença no atendimento das filhas que receberam dele atenção e cuidados durante os anos de sua formação e aquelas que ele deixara na China, ainda crianças.
O velho Wong recebeu de todas total cuidado, até a sua desencarnação.
Então, sem esperar por abertura de testamento ou decisão do espólio, as duas irmãs fizeram as malas, abraçaram as meio-irmãs e retornaram para sua velha e amada China.
* * *
Atender os pais idosos em suas necessidades é dever dos filhos.
O amor filial vai muito além disso. É dar aos pais esses pequenos nadas supérfluos e cuidados amáveis que lhes alimentam o coração envelhecido.
E se a Lei Divina nos diz que devemos amar o próprio inimigo, a dedicação de filhos para com os pais deve se estender até mesmo para aqueles que não cumpriram seus deveres.
Isso, as irmãs chinesas fizeram muito bem.

Redação do Momento Espírita

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Coragem no caminho


Se chegaste aos dias anuviados de pranto, à vista de ocorrências infelizes, acende a luz da esperança e caminha adiante, olvidando na retaguarda o que te possa parecer aflição e desengano.
Outro dia, com novas emoções, espera-te amanhã, renovando-te a vida.
Circunstâncias inesperadas te deslocaram da segurança em que vivias, arrojando-te nas dificuldades do começo da existência...
Esquece quantos te surgiram por instrumentos de inquietação e lembra-te de que as oportunidades de trabalho continuam brilhando para os que não se deixam vencer pelo desânimo.
Pessoas queridas talvez se te hajam transformado em obstáculos à paz, compelindo-te á travessia de espessas nuvens de lágrimas...
Esquece os que se acomodaram com atitudes irrefletidas e pensa nas dedicações sinceras que te felicitam as horas.
Alguém a quem amas, enternecidamente, haverá falhado nos compromissos assumidos, relegando-te ao abandono...
Esquece o menosprezo de que terás sido objeto e conserva a imagem desse alguém no tesouro de tua gratidão pela felicidade que te deu e prossegue em frente, na certeza de que a vida te ofertará estradas novas para a aquisição de alegrias diferentes.
Acontecimentos calamitosos te impeliram a vacilar nos fundamentos da fé, ainda insegura...
Esquece, porém, os fatos amargos e adianta-te na jornada para diante, valorizando os recursos espirituais de que dispões, recordando que o Céu continua alentando a última planta das últimas faixas do deserto e revigorando o verme da mais oculta reentrância de abismo.
Seja qual seja o tipo de provação que te incline ao desalento, vence o torpor da tristeza e segue para a vanguarda de tuas próprias aspirações.
Da imensidão da noite, nascerá sempre o fulgor de novo dia.
Não te permitas qualquer parada nas sombras da inércia.
Trabalha e prossegue em frente, porque a bênção de Deus te espera em cada alvorecer.

Chico Xavier - Meimei