quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Homem Triste


Você passou por mim com simpatia, mas quando viu meus olhos parados, indagou em silêncio por que vagueio pelas ruas.
Talvez por isso apressou o passo e, ainda que eu quisesse chamar, a palavra desfaleceu na boca.
É possível que você suponha que eu desisti do trabalho, no entanto, ainda hoje, bati de porta em porta, em vão...
Muitos disseram que ultrapassei a idade para ganhar o pão, como se a madureza do corpo fosse condenação à inutilidade.
Outros, desconhecendo que vendi minha melhor roupa, para aliviar a esposa enferma, me despediram apressados, crendo que fosse eu um vagabundo sem profissão.
Não sei se você notou quando o guarda me arrancou da frente da vitrine, a gritar palavras duras, como se eu fosse um malfeitor vulgar.
Contudo, acredite, nem me passou pela mente a déia de furto. Apenas admirava os bolos expostos, recordando os filhinhos a me abraçar com fome, quando retorno à casa.
Talvez tenha observado as pessoas que me endereçavam gracejos, imaginando que eu fosse um bêbado, porque eu tremia, apoiado ao poste.
Afastaram-se todos com manifesto desprezo, mas não tive coragem de explicar que não tomo qualquer alimentação há três dias.
A você, todavia, que me olhou sem medo, ouso rogar apoio e cooperação.
Agradeço a dádiva que me ofereça, em nome do Cristo, que dizemos amar, e peço para que me restitua a esperança, a fim de que eu possa honrar com alegria o dom de viver.
Para isso, basta que se aproxime de mim sem asco, para que eu saiba, apesar de todo meu infortúnio, que ainda sou seu irmão.
* * *
Esta é a mensagem de um homem triste, quiçá como tantos que vemos perambulando pelas ruas.
É bem verdade que alguns são de fato pessoas que se comprazem na ociosidade.
Todavia, há os desafortunados que, apesar de trabalhar a vida toda, não puderam ajuntar moedas para o sustento próprio e da família e que, chegada a madureza, são condenados pela sociedade a viver como réprobos, embora sejam pessoas dignas.
É comum observarmos homens e mulheres puxando um carrinho de papéis e outros objetos recicláveis, para prover o próprio sustento.
São nossos irmãos de caminhada evolutiva que não têm coragem de viver da mendicância. Por isso trabalham com dignidade.
Muitos de nós, no entanto, nos enfadamos com essas criaturas que atrapalham o trânsito com seus carrinhos indesejáveis.
O que não nos damos conta é que, além do peso do carrinho, têm ainda que carregar sobre os ombros o peso da humilhação e do desprezo impostos por uma sociedade indiferente.
É verdade que todos nós estamos colhendo o que plantamos, e que aqueles que passam por essas situações precisam dessas experiências para crescerem espiritualmente.
Entretanto, são nossos irmãos, filhos do mesmo Pai­ Criador e merecedores sem dúvida, no mínimo, do nosso respeito.
Se não os podemos ajudar, que não os atrapalhemos jogando-lhes palavras amargas nem menosprezando-os, dificultando ainda mais a sua caminhada.
* * *
Muitas pessoas que hoje vivem na miséria já foram pessoas muito ricas em outras existências e vice-versa.
As Leis Divinas a todos nos reservam as lições que necessitamos para progredir.
E a lógica diz que aquele que é rico e esbanja sua fortuna em futilidades e em proveito próprio, precisa passar por necessidades materiais para aprender a valorizar os tesouros que Deus lhe empresta, a fim de que possa progredir.

Redação do Momento Espírita com base no cap. Mensagem do homem triste, pelo Espírito Meimei, do livro Ideal espírita, por Espíritos diversos, psicografia de Francisco Cândido Xavier

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O Tempo e o Vento


Depois de criar o homem, Deus pôs-se a pensar

O que eles farão da vida, sem o medo dela passar
Criou então algo novo que consumisse a vida aos poucos
E como moeda de troca fosse gasto a cada evento
Usaríamos a todo instante sem ter direito a troco
E a ele deu um nome, batizou-o então de TEMPO

Mas logo após criá-lo, notou que não o sabiam usar
Viviam de forma tola, como se nunca fosse acabar
Mas como exigir que o homem pudesse saber gerir
Algo que não podia tocar, nem mesmo ver ou sentir
Então o grande Arquiteto criou um irmão pro tempo
Possível de ser sentido, lhe deu o nome de VENTO

Esqueçam portanto o tempo
Difícil de compreender
Aprendam mirando o vento
Que em poesia ensina a viver

O vento quando se apressa, e sopra o seu vigor
Destrói o que lhe atravessa, causando pânico e dor
Já sua brisa leve, constante e cadenciada
Transporta pequenos grãos, e parece não dar em nada
Mas muitos pequenos grãos, de forma coordenada
Constroem dunas enormes, semeiam a terra arada

O vento só anda pra frente
Não lembra por onde passou
Por saber viver o presente
É jovem e nunca cansou

Às vezes, sopra tão leve a ponto de silenciar
Assim como fazemos com o tempo,
Passamos a questionar
Estaria ele ainda aqui? Difícil imaginar
Mas bastam alguns segundos, para termos de respirar
Então nos parece claro, que Deus com seu dedo em riste
Nos fala de forma firme: "Não é só o que tu vês que existe"

Juntos, o tempo e vento, nos passam a grande lição
Vivam daqui pra frente
Saibam pedir perdão

Construam sem ansiedade, não deixem de acreditar
Devagar se chega longe, o que nos atrasa é parar
Creiam no que não veem, saibam agradecer
Busquem menos posses, preocupem-se mais em ser
Bailem por onde passam, espalhem a esperança
Ajudem o que é mais velho, encantem uma criança
Partam sem deixar mágoas, demonstrem o seu apreço
Onde veem um fim é sempre um novo começo

Meu tempo ainda é mistério, de tudo já ouvi falar
Uns dizem que um dia acaba, que tenho de aproveitar
Mas de outros ouvi também, com muita convicção
Que a vida é só passagem e a morte, conexão
Mas Deus me deu o vento, para o tempo melhor entender
Lhe deixo a face aberta, e peço pra responder
Uivando em meus ouvidos, sussurra então pra mim:
"Meu jovem, não se preocupe, seu tempo não terá fim
Por mais que seu corpo acabe, e pó você venha a virar
Lhe carregarei no colo, e seu pó irei semear
Te transformarás em flores e vidas irás enfeitar
Ou mesmo talvez em frutos, pra outros alimentar
Estarás então em tudo, assim como eu estou
Serás como tempo e vento, irás para onde vou
Não espere esse dia chegar, já podes compreender
Onde avistam seus olhos, em tudo que pode ver
Existe a unidade, são todos pedaços seus
Por isso és dito homem, mas revelo-te: também és Deus!"

Eduardo Moreira (autor de "Encantadores de Vidas")