quinta-feira, 23 de abril de 2015

Gestos Simples Sublimam


Antes de iniciar uma enorme empreitada para recursos financeiros a pretexto do serviço de Jesus, reflita! pois, gestos simples sublimam.
Ante a agonia de um doente em convalescença no hospital, tua mão pode ser o instante de paz que o enfermo precisa. Teu "toque de afeto" pode ser o instrumento capaz de tornar o irmão combalido forte para divisar a nova janela que se abre de saúde física ou de retorno à pátria espiritual.

Antes da eclosão de palavras encolerizadas que fomentaram o sentimento de raiva e injúria que perpassa sem freios em teu pensamento em fúria doméstica, se um "olhar fraterno" fosse lançado na turva de pensamentos rancorosos, talvez não seria necessário pedir perdão depois.

Quando, tiveste ganho a quantia que te acelerou as conquistas financeiras, teu ímpeto regozija-se no consolo dos seres em sofrimento espalhados aos milhares na faixa de tuas inúmeras captações visuais diárias. Ou mesmo, "um pensamento de amor", saltasse de tua decisão para com o próximo. Acredito que, teus dias não seriam tão vazios apesar da casa cheia, repleta de gente e distantes da gratidão.

Da boca, aglomera-se as vertentes de pacificação ou discórdia. A ti, reverbera as múltiplas possibilidades de registro no universo para o crescimento moral ou à estagnação.

Antes de pensar na gigantesca fortaleza para abrigar enfermos da alma, reflita se ao
encontrar teu irmão em dor, tú :

Tens "um pensamento de amor" ?
Costumas ao divisá-lo, ter um "olhar fraterno" ?
E no auge da compaixão, se preciso for doas um "toque de afeto" ?

A grande diferença entre os ditos trabalhadores do bem e os que são chamados de
enfermos, é que: Nós somos enfermos que trabalhamos para tentar ajudar outros.

Gestos Simples Sublimam.

Scheilla.

01/03/2013
Médium: FernandoBen
Rio de Janeiro.

Acervo: www.difusorespirita.com.br

quarta-feira, 22 de abril de 2015

A gente se acostuma...


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti