segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Gesto Especial


Eles eram oito executivos trabalhando em uma grande empresa. Um deles destoava dos demais.
Ele era um homem quieto, calado. Quando todos iam ao lanche, ele se retirava para um local isolado e ficava a sós.
Era tido pelos demais como uma pessoa estranha. Os colegas se encontravam depois do trabalho, saíam juntos e Ernani nunca participava de nada.
Mauro, o mais desinibido do grupo fazia graça, inventava piadas para os amigos onde, sempre, o motivo de riso era Ernani.
Certo final de semana, Mauro anunciou que iria pescar e prometeu aos companheiros que, se fosse feliz na pescaria, traria um salmão para cada um deles.
Secretamente, confidenciou aos companheiros que, para Ernani, ele destinaria as vísceras e os rabos dos peixes. Desejava pregar-lhe uma peça e todos iriam rir muito.
E assim foi. Na segunda-feira, cada um deles recebeu um embrulho muito bem feito, inclusive Ernani. Cada um foi abrindo o seu e verificando o salmão limpo.
Ernani ficou sentado, olhando para o pacote. Instado a abri-lo, entre risos de todos, de voz embargada ele falou:
Fico muito emocionado com a lembrança. Quero dizer a vocês que tenho vivido, há cinco anos, um grande drama.
Minha esposa teve um acidente e ficou tetraplégica. Todos os recursos do meu salário são para atender suas necessidades médicas.
A voz era reticente e o ar começou a pesar, no escritório. Mauro tentou retirar o embrulho das mãos de Ernani. Era tarde. Ele tinha começado a desembrulhar.
Agora, as lágrimas lhe assomavam aos olhos e ele não as conseguia conter. A emoção o dominava.
Tenho cinco filhos, continuou. Eles não vão para a escola, porque meu dinheiro não consegue pagar o que seja necessário. Eu não tenho dinheiro nem para o material escolar, nem para os uniformes.
Vocês falam a meu respeito, eu sei, porque nunca faço lanche com vocês. É que trago um lanche de casa e tenho vergonha de mostrá-lo. Por isso, sempre me retiro para comer a sós.
Mas, hoje, - e retirou mais um pedaço de papel do embrulho - hoje, meus filhos comerão bem, graças a você, Mauro.
Ernani abriu o pacote por inteiro e se deparou com as vísceras e rabos dos peixes.
Um silêncio geral se fez na sala. Um mal estar tomou conta de todos. Não havia o que dizer, o que fazer.
Então, um dos executivos se dirigiu até Ernani e depositou no seu colo o próprio embrulho. Todos os demais o imitaram.
No próximo final de semana, eles visitaram Ernani e, se cotizando, providenciaram melhor atendimento para a esposa.
Cada um deles assumiu os gastos com a escola de um de seus filhos.
Eles haviam despertado para uma realidade jamais imaginada.
A esposa de Ernani veio a falecer, alguns meses depois. Os filhos se formaram, um a um.
Os amigos se olharam e perguntaram: E, agora?
Então, juntos optaram por fundar uma O N G, cujo objetivo fosse atender a pais com necessidades especiais e seus filhos.
Um gesto de amizade redundou em benefício para uma larga comunidade.
* * *
Fique atento ao que ocorre ao seu redor. O companheiro arredio, por vezes é alguém que traz o coração em chaga viva.
Observe, pergunte, disponha-se a auxiliar e faça luz em outras vidas.

Redação do Momento Espírita,

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Nossa Hora


Era um dia como outro qualquer. As malas do casal já estavam prontas desde o dia anterior.

Despediram-se do único filho e saíram em viagem para participar das festividades do casamento de uma sobrinha, que residia em Estado vizinho.

Tão logo se distanciaram do lar, a esposa pediu ao marido que retornasse, pois gostaria de despedir-se do filho. O marido a fez lembrar que já o haviam feito, mas ela insistiu.

Aquela mãe sentia que não voltaria a rever o filho amado, nem iria estreitá-lo num abraço apertado na presente existência. Sentia que aquela viagem era definitiva. De alguma forma ela pressentia isso.

O marido, um tanto contrariado, atendeu ao pedido da esposa e voltou. O filho, ao vê-los, pensou que se haviam esquecido de algo.

Mas a mãe logo o envolveu num suave abraço maternal, como a dizer-lhe adeus. Como quem se despede sem saber quando voltariam a reencontrar-se novamente.

Seguiram viagem, participaram das festividades, reviram os parentes, e por fim, o retorno.

Antes porém, a esposa pediu ao marido que fizesse uma prece, ao que ele respondeu que já havia orado, que o fato de não abraçarem a mesma religião não o fazia menos crente em Deus.

Ao longo da viagem, por várias vezes estiveram na iminência de um acidente, mas conseguiram sair ilesos.

No entanto, quando a ordem vem do Alto, nada, nem ninguém pode impedir.

Mais um perigo, e dessa vez foi impossível evitar... A esposa ficou entre as ferragens do veículo, e o marido sofreu apenas pequenos arranhões.

Aquela mãe e esposa pressentia que já era hora de fechar a mala e retornar à pátria espiritual.

Alguns meses depois de sua partida, um médium espírita, amigo da família, que a conhecera ainda no corpo, trouxe a notícia de que a havia visto no mundo espiritual, que ela estava bem, feliz por ter deixado na Terra dois homens: o marido e o filho.

Feliz não por tê-los deixado, mas por tê-los deixado bem. O filho já moço e o marido bem orientado. Cumprira a sua missão de esposa e mãe.

* * *

Fatos como esse acontecem diariamente. Uns voltam à pátria espiritual pelas portas do túmulo e outros tantos chegam pelas portas do berço.

Mas a questão é se estamos preparados, ou se preparamos os nossos entes caros para quando chegar a nossa hora. Que ela chegará, não nos resta dúvida, mas quando chegará não sabemos.

É importante que vivamos sempre em harmonia com nossos afetos, para que o remorso não nos dilacere a alma, depois da partida.

É preciso que deixemos as nossas coisas sempre em ordem, não esperando a morte, mas com previdência, para que, em chegando a nossa hora, não deixemos os nossos em situações difíceis.

Será que nós, que temos filhos, temos procurado edificar suas vidas de forma que quando não tiverem mais a nossa presença saibam tomar decisões acertadas?

Ou será que os mantemos em total dependência nossa?

Pensemos nessas e noutras questões, e sejamos de fato previdentes. Deixemos a nossa mala sempre arrumada para quando chegar a nossa hora, a fim de que evitemos dissabores mais tarde.

* * *

A preocupação com os afetos que ficaram é uma das causas de sofrimento para o Espírito desencarnado.

A maioria dos que partem diariamente nunca se preocupou em deixar em dia seus negócios, papéis e as relações de afeto. Por isso sofrem quando se dão conta de que é tarde demais.

Muitos dariam tudo que lhes fosse possível pela oportunidade de algumas palavras com os entes caros, com intuito de alertá-los para a realidade que a todos nos aguarda após a aduana do túmulo.

Acontece como na Parábola de Lázaro e o Rico, narrada nos Evangelhos. O rico, deparando-se com a realidade após a morte, queria voltar para falar aos familiares para que mudassem o rumo de suas vidas.

Mas o Espírito de Abraão disse-lhe que ele tivera tempo para isso, e que seus familiares tinham os Profetas, que os ouvissem portanto.

Pensemos nisso.

Redação do Momento Espírita.